quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um bibliófilo imortal

José Mindlin (1914-2010) foi um repórter, advogado, empresário, escritor e bibliófilo brasileiro. Fundador da Metal Leve (vendida para uma empresa alemã) e apaixonado colecionador de livros. Aos 13 anos, José Mindlin entrou num sebo de São Paulo e comprou seu primeiro livro: um exemplar do "Discurso sobre a História Universal", volume datado de 1740 e escrito pelo bispo francês Jacob Bossuet. Aquele título seria a pedra inaugural de um empreendimento extraordinário. Ao completar 95 anos, acumulava um acervo de aproximadamente 40 mil volumes, incluindo obras de literatura brasileira e portuguesa, relatos de viajantes, manuscritos históricos e literários (originais e provas tipográficas), periódicos, livros científicos e didáticos, iconografia e livros de artistas (gravuras). Foi então considerada a maior biblioteca pessoal e também a mais importante do País. Em 2006, foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras.
No mesmo ano, decidiu doar todas as obras brasileiras da vasta coleção pessoal à Universidade de São Paulo (USP). A partir de então, a biblioteca passou a ser chamada "Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin", (Guita era o nome de sua esposa já falecida). A USP digitalizou boa parte do precioso acervo de Mindlin na Internet.

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Nada como um dia depois do outro...

Num mercado de escravos em Campinas, no fim da década de 1830, um molequinho de oito anos estragava a venda de um lote de escravos. Um abastado comprador, recusava-se a fazer lance, por julgar que o pequeno não interessava e até prejudicava o negócio do lote. Afinal, como o vendedor insistisse muito, ele resolveu fazer algumas perguntas ao garoto, a ver se encontrava nele alguma qualidade recomendável para efetuar a compra: - Onde nasceste? - Na Bahia- respondeu timidamente o pretinho, refugiando-se no meio dos seus companheiros de infortúnio. - Baiano... Nem de graça!- declarou o fazendeiro. E afastando-se: - Já não foi por bom que te venderam tão pequeno! Trinta anos depois, em São Paulo, Luiz Gama (1830-1882)- pois o pequeno não era outro senão o grande advogado, escritor e jornalista, uma das maiores figuras da campanha abolicionista- fez relações de amizade com o tal fazendeiro, que era o conde de Três Rios (1821-1893). E o velho titular que o recusara como escravo, orgulhava-se, então, de tê-lo como um dos seus melhores amigos.

Chico e comentários da Internet

Neste vídeo Chico Buarque fala sobre comentários que leu sobre ele, nas primeiras vezes em que navegou na internet. Realmente, a gente sempre pensa que só vai encontrar elogios...

O imperador e o telefone

"To be or no to be, that's the question" (Ser ou não ser, eis a questão), uma frase mundialmente conhecida, pronunciada por um certo príncipe da Dinamarca, oriunda da imaginação prolixa de Shakespeare. Merecendo até uma modificação de Oswald de Andrade: "Tupi or no Tupi, that's the question" (era uma pretensão do modernista transformar o idioma Tupi em língua nacional, um Policarpo Quaresma da vida). Esta frase também foi pronunciada por um personagem importante de nossa história, em um momento célebre. Em 1876, ocorreu a Exposição da Filadélfia, em comemoração ao centenário da independência dos Estados Unidos. Dom Pedro II foi até lá, e fez parte da comissão julgadora. Ao passar pelo estande de Graham Bell, o imperador foi convidado pelo inventor (os dois já haviam se conhecido, em Boston, na escola de surdos-mudos de Bell) para fazer o primeiro teste público do aparelho criado por ele-o telefone. Ele pediu ao soberano brasileiro que falasse alguma coisa. Dom Pedro II, em um de seus lampejos de erudição, disse ao telefone: "To be or no to be, that's the question." E ainda acrescentou "Meu Deus, isto fala!" Dom Pedro II foi um entusiasta do telefone. No mesmo ano (1876), Graham Bell recebeu a patente pela invenção do telefone. E um aparelho telefônico foi instalado no Palácio São Cristóvão, no Rio de Janeiro.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

"A escola de Atenas" Rafael

Este é um famoso afresco de Rafael Sanzio, "Escola de Atenas". Está localizado no Vaticano, e representa vários filósofos e pensadores da antiguidade. Foi pintada entre 1509 e 1510.
Vamos analisar essa pintura, e descobrir quais são as principais figuras nela representadas. Pequena curiosidade: essa é a sala em que a pintura se encontra, a Stanza della segnatura :

Habemus papam

"Habemus papam" (Temos um papa), como todo bom católico sabe, é o texto lido pelo cardeal decano (o mais velho dos cardeais da ordem dos diáconos), para anunciar a eleição do novo Papa. O anúncio é feito da varanda central da basílica de São Pedro, para todo o povo, e todo o texto é em latim. Diz-se o nome verdadeiro do papa, e o nome escolhido por ele como papa. Eis o texto em latim, e traduzido: LATIM Annuntio vobis gaudium magnum; Habemus Papam: Eminentissimum ac reverendissimum Dominum, Dominum (Nome), Sanctæ Romanæ Ecclesiæ Cardinalem (Sobrenome), Qui sibi nomen imposuit (Nome papal). TRADUÇÃO PORTUGUESA Anuncio-vos uma grande alegria; Temos Papa: O eminentíssimo e reverendíssimo Senhor, Senhor (Nome), Cardeal da Santa Romana Igreja (Sobrenome), Que se impôs o nome de (Nome papal). Para vocês terem uma ideia de como é antiga essa tradição, vejam só essa ilustração:
Este é o Habemus papam da eleição do papa Martinho V, em 1415. Isso mesmo, 1415! E esse costume é ainda mais antigo. Este vídeo é interessantíssimo. É uma compilação de todos os "Habemus papam", de 1939 até 2013. Apenas para que você possa se situar, aí vai a data de cada um dos anúncios, e o papa que havia sido eleito: 1- 2 de março de 1939- Pio XII; 2- 28 de outubro de 1958- João XXIII; 3- 21 de junho de 1963- Paulo VI; 4- 26 de agosto de 1978- João Paulo I; 5- 16 de outubro de 1978- João Paulo II; 6- 19 de abril de 2005- Bento XVI; 7- 13 de março de 2013- Francisco.

Ovo de Colombo, ou de Brunelleschi?

Sabemos que, Cristóvão Colombo (1451-1506), o grande almirante genovês, querendo demonstrar que as coisas mais simples, como considerava as suas descobertas, dependem muitas vezes de uma inspiração que só aos gênios ocorre, propôs que os seus críticos pusessem um ovo em pé, sobre um prato, o que ninguém conseguiu, a não ser ele, batendo simplesmente uma das pontos do ovo, que assim repousou sobre uma base plana. Daí surgiu a expressão "Ovo de Colombo".
Contudo essa mesma operação foi praticada muito antes por Filippo Brunelleschi (1377-1446).
O grande arquiteto florentino havia projetado uma obra formidável, que rompia com os preceitos góticos, tão em voga durante a Idade Média. Havia ele projetado cobrir com uma só cúpula as quatro naves da Catedral de Santa Maria del Fiore, em Florença, sem qualquer sustentáculo interior. Ideara um sistema no qual a construção serviria a si própria de ponto de apoio, num conjunto de gravidade equilibrada por forças contrárias ao próprio sistema. Os seus adversários e concorrentes, entretanto, condenavam o projeto, considerando-o inexequível. Um, mais impertinente, que pretendeu confundir o genial artista no meio de muitas pessoas gradas, perguntou-lhe: -"Acaso poderia o mestre mostrar aos que aqui estão, de maneira clara e precisa, como seria sustentada a sua cúpula?" Brunelleschi, abandonando a sala por alguns momentos, votou trazendo na mão um ovo, que bateu sobre uma mesa, dizendo: -"A cúpula se sustentará assim, tal como este ovo!" Tal como o ovo, que é mais de Brunelleschi do que de Colombo, a majestosa cúpula da Catedral de Florença se sustenta até hoje, como eloquente atestado do gênio daquele que Michelangelo dizia ser: "Difícil de imitar e impossível de exceder."